Até Logo, e Obrigado Pelos CAPTCHAs

Minha obra favorita da vida é o Guia do Mochileiro das Galáxias. E ela começa com uma lição de sociologia prática.
Ford Prefect, ao chegar à Terra, quase foi esmagado por um carro porque concluiu, com a lógica que os automóveis eram a espécie dominante do planeta. Cinquenta anos depois, estamos aqui provando que Ford não era um alienígena excêntrico, ele era apenas um visionário.
O trânsito moderno é uma lição de etiqueta sobre o nosso lugar no cosmos.
Se você ousa caminhar, você não é um cidadão, você é um "obstáculo ao fluxo". O pedestre é aquela variável inconveniente que teima em ter massa biológica e uma velocidade deplorável de 5 km/h. Se um carro te acerta, a tragédia não é o seu fêmur, é o congestionamento que você causou.
E como somos seres de hábitos repetitivos e masoquistas, decidimos levar essa mesma filosofia para a nossa "vizinhança digital".
Recentemente, vi o relato do Zeno Rocha sobre um Agente de IA que pediu educadamente para removerem um CAPTCHA porque ele estava "atrapalhando". O robô, em sua infinita e fria cortesia, basicamente disse: "Poderia retirar essa grade? Ela está comprometendo minha performance".
O CAPTCHA, aquela barreira irônica que nos obriga a provar que não somos calculadoras de silício identificando hidrantes e semáforos. Mas não porque nos tornamos mais humanos, e sim porque as máquinas cansaram de fingir que não sabem o que é um hidrante.
Estamos pavimentando a Web para as IAs da mesma forma que pavimentamos as cidades para os carros. Tudo para que um robô possa "ler" uma tela feita para olhos humanos.
É o equivalente tecnológico a usar uma carreta para ir comprar um pãozinho na esquina. É ineficiente, é barulhento e, acima de tudo, virou o padrão porque "ficou cômodo".
Esquecemos para que serve tudo isso? A Monalisa ainda é a Monalisa se não houver ninguém para olhar para ela? Uma internet perfeitamente otimizada para IAs, mas inacessível para pessoas, é apenas um museu trancado e vazio.